Descrição
“Clara dos Anjos” é uma obra que sintetiza a essência de Lima Barreto. Isso vale não apenas para o conteúdo — que retrata uma classe social de gente rude e simples, frequentemente dada à bebida e a visões de mundo ingênuas, levando vidas um tanto sem rumo —, vale também para o estilo.
O autor mistura elegância e crueza, organizando os episódios sucessivos da história de maneira algo caótica. Comumente ele faz digressões, imita a fala coloquial e repete análises de forma quase obsessiva. A caracterização psicológica é, por vezes, esquemática e carente de sutileza.
O autor escreve como se fosse um daqueles mesmos personagens — ora patéticos, ora ridículos — que desfilam pelas páginas da história. Talvez essa fosse a sua maneira de demonstrar solidariedade com o povo simples e comum que era, de fato, “o seu próprio povo”.
Em “Clara dos Anjos”, ele retrata a situação melancólica das classes baixas do Rio de Janeiro no século XIX — um grupo desprovido de instrução, direitos fundamentais e perspectivas de ascensão. A exploração e os maus-tratos contra as mulheres — questões amplamente ignoradas na época — constituem um aspecto interessante da obra.
Os personagens são retratados com uma falta de sutileza psicológica que ilustra com eficácia a condição de um povo cujos direitos básicos eram totalmente negligenciados pelos políticos. A República foi proclamada em 1889, um ano após a abolição da escravidão, mas a democracia permanecia um sonho distante…
Lima Barreto morreu em 1922, e “Clara dos Anjos” só foi publicada em livro em 1948.
(Extraído da Apresentação do livro)







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